Poços de Caldas, MG – O cricket brasileiro vive um dos momentos mais importantes de sua história recente. Depois de 26 anos de espera, a Seleção Brasileira masculina conquistou o título sul-americano da modalidade, em competição realizada em Bogotá, na Colômbia. A campanha foi perfeita: foram seis partidas e seis vitórias, desempenho que coroou um período de investimentos na equipe nacional e reforçou as expectativas do Cricket Brasil para os próximos ciclos internacionais.
O resultado foi comemorado pelo CEO do Cricket Brasil, Matt Featherstone, que destacou não apenas a conquista inédita para a atual geração, mas também a evolução apresentada pela Seleção ao longo dos últimos meses. “Nós estamos super felizes. A Seleção Masculina, depois de 26 anos, é campeã sul-americana. Este é um ano especial”, afirmou.
A conquista na Colômbia representa mais um resultado expressivo obtido pela equipe masculina em 2026. Em abril, o Brasil já havia conquistado uma competição da América Central, disputada na Cidade do México. Agora, poucos meses depois, acrescentou o título sul-americano à temporada.
Para Featherstone, os resultados estão diretamente relacionados à decisão de ampliar a estrutura destinada à Seleção masculina. Segundo o dirigente, no ano passado o Cricket Brasil passou a contar com uma equipe masculina trabalhando em regime integral, dentro de uma estratégia semelhante ao investimento realizado no desenvolvimento da Seleção feminina. “Depois de 26 anos, fomos campeões sul-americanos em Bogotá. É uma surpresa, mas também é o que estávamos esperando com o investimento na Seleção masculina, da mesma maneira que investimos na feminina. Agora os resultados estão chegando”, destacou.
Campanha perfeita em Bogotá
O desempenho brasileiro na competição foi especialmente comemorado pela maneira como o título foi conquistado. O Brasil disputou seis partidas e venceu todas, encerrando sua participação de forma invicta.
Além da conquista coletiva, integrantes da Seleção Brasileira também receberam destaques individuais. De acordo com Matt Featherstone, o Brasil teve entre seus representantes os melhores remessadores da competição e também o melhor jogador do campeonato.
A campanha teve peso ainda maior pelo nível de alguns adversários. Segundo o CEO do Cricket Brasil, determinadas seleções participantes aparecem à frente do Brasil no ranking mundial, o que tornou as vitórias ainda mais significativas dentro do processo de crescimento da equipe nacional.
Entre os principais adversários estiveram México e Panamá, apontados por Featherstone como equipes posicionadas acima do Brasil no cenário internacional. A Colômbia, anfitriã da competição, também apresentou uma equipe competitiva, embora, segundo o dirigente, não integre atualmente o ranking por não fazer parte do International Cricket Council (ICC).
A competição contou ainda com Peru e Turks and Caicos, território caribenho integrante do ICC. “Houve times que achávamos que seria mais fácil vencer, mas tivemos vários adversários que estão bem à frente do Brasil no ranking. É isso que buscamos. Jogamos bem e o resultado apareceu”, avaliou Featherstone.
Para o dirigente, a conquista também encerrou uma sequência de oportunidades em que a Seleção Brasileira esteve próxima do título, mas não conseguiu levantar o troféu. “Já chegamos várias vezes à final, mas nunca levamos o troféu. Desta vez foi nosso. A turma jogou muito bem em Bogotá. O resultado não poderia ser melhor: jogamos seis jogos e ganhamos os seis”, ressaltou.
Calendário internacional continua
A conquista sul-americana não encerra o calendário da modalidade. Pelo contrário, o Cricket Brasil já trabalha na preparação das próximas etapas, envolvendo simultaneamente as seleções masculina e feminina.
Entre os projetos está uma viagem à África, que deverá reunir atletas das duas seleções para um período conjunto de treinamento. A proposta faz parte da estratégia de aumentar o nível técnico dos jogadores e ampliar o contato com diferentes escolas e ambientes competitivos.
Outro investimento anunciado por Featherstone envolve a chegada de sete treinadores da Inglaterra. Os profissionais deverão trabalhar na base do Cricket Brasil durante um período envolvendo os meses de agosto, setembro e outubro.
A permanência dos treinadores estrangeiros faz parte de um projeto de desenvolvimento técnico que pretende elevar o nível das equipes brasileiras antes dos próximos grandes compromissos internacionais. “Nós estamos trazendo sete treinadores da Inglaterra para ficar aqui na base do Cricket, trabalhando durante esse período e puxando o nível para cima”, explicou.
O planejamento também está direcionado às competições internacionais previstas para o início de 2027 e, principalmente, ao ciclo dos Jogos Pan-Americanos. Segundo Featherstone, apesar de o evento ainda parecer distante, o tempo de preparação é relativamente curto. “Estamos preparando para os jogos mundiais no começo do ano que vem e para o Pan-Americano. Parece longe, mas são só dez meses para preparar para o primeiro Pan-Americano”, ressaltou.
Atletas brasileiras despertam interesse internacional
O crescimento do cricket brasileiro também começa a produzir reflexos fora das competições disputadas diretamente pelas seleções nacionais. Atletas formadas no país vêm despertando o interesse de equipes estrangeiras, algo considerado pelo Cricket Brasil como uma demonstração da evolução técnica alcançada nos últimos anos.
Segundo Matt Featherstone, duas jogadoras brasileiras, Malu e Laura, foram procuradas diretamente por uma equipe canadense. O clube entrou em contato com a Confederação interessado especificamente nas duas atletas.
As brasileiras deverão integrar o Toronto Sixers, franquia que participará de uma competição em Vancouver, no Canadá. Para Featherstone, o fato de uma equipe estrangeira procurar diretamente atletas desenvolvidas dentro do sistema brasileiro representa um reconhecimento importante do trabalho de formação realizado no país. “Dá muito orgulho, mas também mostra o que eu sempre falo: tem muito talento, só falta oportunidade”, afirmou.
A avaliação do dirigente é de que o cricket ainda alcança uma parcela pequena da população brasileira. Por isso, a ampliação da base de praticantes é considerada fundamental para que novos talentos possam ser identificados.
Na visão de Featherstone, se os projetos atuais já conseguem formar jogadores capazes de despertar interesse internacional, a expansão da modalidade poderá multiplicar o número de brasileiros em condições de competir dentro e fora do país. “Nós ainda estamos chegando a muito poucos brasileiros. Temos que abrir esse leque, e ele vai abrir. Imagina, quando esse leque ficar maior, quantos brasileiros poderão se destacar aqui no Brasil e fora?”, comentou.
Brasil também se destaca na Seleção das Américas Sub-19
Outra demonstração dessa evolução ocorre nas categorias de base. Duas atletas brasileiras foram convocadas para integrar a Seleção das Américas Sub-19, que participa de atividades nas Ilhas Cayman.
Uma delas, Júlia, ganhou ainda mais destaque durante a programação internacional. De acordo com Featherstone, depois do segundo dia de atividades, a brasileira foi escolhida para ser capitã da Seleção das Américas.
A convocação e a escolha para a função de liderança são vistas como mais um indicativo da qualidade técnica e do reconhecimento conquistado pelas atletas brasileiras no ambiente internacional.
Para o CEO do Cricket Brasil, esses resultados não aparecem de maneira isolada. Eles são consequência do trabalho realizado na formação e no desenvolvimento dos jogadores. “Depois de um grande trabalho que está sendo feito aqui na sede, nós sabemos que as novidades e os bons resultados vão chegar”, afirmou.
Cricket entra em nova fase com ciclo olímpico
Além dos resultados esportivos, o cricket brasileiro atravessa um período considerado estratégico por causa da inserção da modalidade no ciclo olímpico.
Featherstone avalia que o reconhecimento do cricket como esporte olímpico ampliou significativamente a visibilidade da modalidade no Brasil e criou novas perspectivas de desenvolvimento.
Segundo ele, a mudança começou a ser percebida com maior intensidade a partir de 2024 e ganhou força em 2025. A presença do cricket no ambiente olímpico, somada à participação em competições pan-americanas e sul-americanas, aumentou a exposição da modalidade e fez com que mais pessoas passassem a conhecer o esporte no país.
O dirigente reconhece que o cricket brasileiro ainda possui uma estrutura pequena quando comparada à de países onde a modalidade está consolidada, mas lembra que o crescimento vem ocorrendo de maneira contínua desde 2009.
A expectativa é de que a estreia olímpica do cricket provoque uma nova expansão, tanto em visibilidade quanto em número de praticantes.
Objetivo brasileiro está projetado para 2032
Apesar da evolução recente, Matt Featherstone trabalha com uma visão de longo prazo quando o assunto é a participação brasileira nos Jogos Olímpicos.
O dirigente não projeta a Seleção Brasileira na primeira edição olímpica desta nova fase da modalidade, mas acredita que o caminho passará inicialmente pelo fortalecimento da presença do país em competições sul-americanas e pan-americanas.
O planejamento aponta para 2032 como um horizonte importante. Até lá, o objetivo é continuar aumentando a base de jogadores, aprimorar a estrutura de treinamento, oferecer oportunidades internacionais e tornar as seleções brasileiras progressivamente mais competitivas. “Somos muito pequenos ainda, mas desde 2009 estamos crescendo cada vez mais. Nas primeiras Olimpíadas não teremos o time jogando, mas teremos no Pan-Americano e no Sul-Americano. Em 2032, o Brasil está dentro”, projetou Featherstone.
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