domingo, 2 de julho de 2017

“Tem setor da Caldense que quer acabar com o futebol”, diz diretor

Poços de Caldas, MG - O Mantiqueira entrevista neste domingo o diretor de marketing da Caldense Victor Hugo Xavier. Ele se afastou do futebol depois da saída de Alex Joaquim. Nesta conversa ele explica os motivos, aborda temas polêmicos, como um possível fim do futebol profissional do clube, divisão de base e o desaparecimento da torcida nos últimos jogos. Confira.

Mantiqueira - Qual a sua avaliação sobre o trabalho do departamento de Marketing nesta temporada?
Victor Hugo Xavier - Considero que este ano superamos as nossas próprias expectativas, a Caldense disputou três competições importantes, Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro da série D  e em todas elas captamos patrocinadores para os espaços na camisa oficial e placas de publicidade no interior do Estádio Ronaldão. Conseguimos arrecadar mais de R$ 400.000 para a Caldense, valor bastante expressivo considerando a retração nos investimentos das empresas e o momento complicado da economia do país. Este aporte contribuiu para que o nosso orçamento fosse coberto com recursos do próprio futebol profissional sem a necessidade da utilização de recursos do clube social. Fiquei muito satisfeito, nem em 2015, quando a Caldense disputou a final do campeonato e foi vice-campeã mineira arrecadamos tanto.

Mantiqueira - A Caldense foi desclassificada e não passou sequer da primeira fase do Campeonato Brasileiro da série D, em sua opinião, o que pode ter acontecido?
Victor Hugo Xavier - Foi uma decepção, frustrante mesmo, aquele time foi montado não somente para conquistar o acesso para a série C, mas para ir além, ser campeão brasileiro da série D este ano, a atmosfera dentro do CT girava em torno disso, a confiança era grande.  Pela primeira vez desde que a Caldense disputa a série D do Brasileiro foi possível manter a totalidade dos nossos principais jogadores e toda a comissão técnica que disputou o Mineiro e ainda trouxemos reforços importantes de outras equipes.  No “papel” estávamos com um time ainda melhor do que o do Campeonato Mineiro, quando enfrentamos Cruzeiro, Atlético e América e conseguimos chegar à quinta colocação.  Na teoria, enfrentar somente times do mesmo porte e orçamento parecidos com o da Caldense nos daria reais chances de conquistar o Campeonato Brasileiro da série D. Em minha opinião, o fator determinante foi o episódio interno acontecido no clube que causou a saída do gerente Alex Joaquim e todos os desdobramentos que o fato gerou. Estávamos a dez dias da estreia no campeonato, existia um clima de grande euforia no CT com a possibilidade de realizar um grande campeonato, depois do fato perdemos quase uma semana inteira de trabalhos, o jogo treino contra o XV de Piracicaba foi cancelado na véspera, nosso principal jogador Ewerton Maradona foi embora, um clima de insegurança e incertezas com relação a tudo se estabeleceu dentro do CT. Eu percebi o emocional de todo o grupo muito abalado. A consequência de todos estes fatores afetou o desempenho da Caldense nos primeiros jogos, as derrotas vieram e depois não deu mais tempo de recuperar.

Mantiqueira - Você também fazia parte da comissão do futebol, após a saída do Alex não foi mais visto no CT. Por quê?
Victor Hugo Xavier - Eu estava junto com o Alex desde novembro, trabalhamos na montagem do time e comissão técnica para o Campeonato Mineiro. Acredito que tivemos sucesso, dos quatro objetivos possíveis a Caldense conquistou três, não correu risco de rebaixamento em nenhum momento, conquistou vaga para a Copa do Brasil em 2018 e conquistou vaga para o Brasileiro da série D em 2018, terminando na quinta colocação vencendo o Atlético Mineiro na última rodada e só não chegou ao quadrangular porque um resultado entre Tombense e URT não a favoreceu.  Para o Campeonato Brasileiro da série D não foi diferente, conversamos diariamente sobre a montagem do time e a necessidade que tínhamos de tentar manter os principais jogadores do Mineiro e reforçar mais ainda. O objetivo era mesmo ser campeão. Como trabalhávamos muito junto e tínhamos as mesmas convicções, com a saída do Alex eu preferi me afastar e me dedicar exclusivamente ao marketing da Caldense, priorizando a renovação dos contratos de patrocínio para o Campeonato Brasileiro da série D, que eram de grande importância para ajudar no orçamento do futebol profissional.

Mantiqueira - Existe mesmo uma ala dentro da Caldense que quer o fim do Futebol? Isso interfere nos resultados?
Victor Hugo Xavier - Infelizmente existe, porque acabar com o futebol da Caldense não é só extingui-lo, a queda da Caldense para uma segunda, terceira divisão em Minas também pode levar ao fim.  Eu percebo que algumas pessoas dentro da Caldense não se importam com este risco que todos os anos assombra a Veterana, como a qualquer outra equipe de baixo orçamento. O rebaixamento acaba com a cota da televisão e patrocínios, enfim, as receitas vão a zero. Para retornar à primeira divisão será necessária a utilização de 100% de recursos do clube social e isso muitos não vão aprovar. Mas a Caldense é grande demais, está acima de qualquer um, tem 92 anos de história, muita tradição, uma camisa forte e uma estrutura invejável. A Caldense tem vocação para ser ainda maior, mas é preciso ter projeto, ter unidade dentro do clube, todos, conselho fiscal, conselho deliberativo, diretoria e presidência têm que verdadeiramente querer chegar, têm que estar fechados, isso gera segurança dentro de qualquer elenco de futebol profissional e reflete diretamente nos resultados.  Oposição e ideias diferentes sempre vão existir e são mais que necessárias desde que convertam para o mesmo objetivo final, que é ver a Caldense um dia disputando pelo menos o Campeonato Brasileiro da Série B.

Mantiqueira - Qual a sua impressão sobre a Caldense voltar com as categorias de base?
Victor Hugo Xavier - Eu penso que merece um estudo maior, são muitas questões que envolvem crianças e adolescentes de certa forma vinculados ao clube, existem dificuldades legais.  O trabalho também é a médio e longo prazo, não se revela jogadores em nível de competição do dia para a noite, é uma utopia acreditar que teremos jogadores para disputar o próximo Campeonato Mineiro com início em fevereiro de 2018 oriundos de peneiras ou trabalho de base iniciado em agosto deste ano. O Campeonato Mineiro é na realidade um torneio e muito perigoso porque tem descenso, a diferença entre se classificar e ser rebaixado às vezes pode ser quatro ou cinco pontos. Não se pode fazer experiências, é um risco ficar testando jogadores de pouca tarimba que não têm histórico de disputa de campeonatos de alto nível técnico e de competição. No Mineiro é assim, com duas, três derrotas seguidas o time passa a correr sérios riscos de rebaixamento, dificilmente se recupera, não tem perdão, a margem de erro é mínima.

Mantiqueira - E a torcida da Caldense, por onde ela anda?
Victor Hugo Xavier - A Caldense tem uma torcida gigante, o público dos últimos jogos não reflete a realidade, vamos lembrar a invasão em Varginha da nossa torcida na final do Campeonato Mineiro de 2015, quando em diversos momentos silenciamos a torcida do Atlético Mineiro. Penso que a Caldense não deve reclamar do baixo público, temos que entender as razões que levam a isso. A Caldense ficou por muitos anos disputando só o Campeonato Mineiro, que dura três meses, e fazendo apenas de 5 a 6 jogos por ano. Isso foi afastando o torcedor, foram muitos anos assim, agora temos que acostumar novamente a torcida com o futebol o ano inteiro e a torcida da Caldense também tem sua própria característica, é muito emocional, ela vai no embalo do time, vai crescendo conforme as vitórias vão acontecendo, e se afasta com as derrotas.  Acompanho a Caldense desde criança e bastam duas vitórias seguidas e o público da partida seguinte no Ronaldão já aumenta consideravelmente. Você tem dúvidas que se a Caldense chegasse à final do Campeonato Brasileiro da série D este ano o Ronaldão ficaria completamente lotado? Então temos torcida sim! O que precisa acontecer é a torcida acreditar no projeto da diretoria para obter o acesso a divisões superiores, série “C”, “B” ou até mesmo a “A”, por que não? E ter a certeza que a Caldense quer realmente lutar até o fim para um dia se inserir de forma definitiva na elite do futebol brasileiro.

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